Fiz aquele anúncio e ninguém viu
Pus em quase todo lugar
A foto mais bonita que eu fiz,
Você olhando pra mim
Alto aqui do sétimo andar
Longe, eu via você
E a luz desperdiçada de manhã
Num copo de café
Los Hermanos - Do sétimo andar.
A escrita vem em momentos muito estranhos, aquela vontade chega
insistente e tudo que se pode fazer é deixa a palavra circular.
Talvez hoje eu seja mais direto em chegar à volta que quero dar. Mas é
um arco que envolve o passado, o amor, a lembrança e, claro, melancolia.
A vida é cheia de esbarrões, choques. E tropeços. Eu sempre andava
distraído todo o caminho até a escola. Eu tinha uma mania estranha, feia, mas
talvez até comum. Sabe quando você caminha na direção de alguém, tem a
impressão que você e o transeunte desconhecido vão colidir e então os dois se
desviam para o mesmo lado... Desviam-se e continuam seguindo um na direção do
outro? Isso sempre acontecia comigo na época de escola.
O mais engraçado é que talvez se eu não fizesse nada, a pessoa prosseguiria seu caminho, feliz ou seja lá como ela estivesse se sentindo, ao seguir essa via. Se a pessoa, por exemplo, continuasse em frente, eu tomaria uma rota alternativa, prosseguindo em meu caminho. Mas a questão é: quando os dois tentam fugir da mesma direção, tomando outra, os dois ainda tomam a mesma. Que porcaria! Não sei se foi claro, mas isso acontece.
O mais engraçado é que talvez se eu não fizesse nada, a pessoa prosseguiria seu caminho, feliz ou seja lá como ela estivesse se sentindo, ao seguir essa via. Se a pessoa, por exemplo, continuasse em frente, eu tomaria uma rota alternativa, prosseguindo em meu caminho. Mas a questão é: quando os dois tentam fugir da mesma direção, tomando outra, os dois ainda tomam a mesma. Que porcaria! Não sei se foi claro, mas isso acontece.
O legal disso é que geralmente esse tipo de esbarrão ocorre com pessoas
desconhecidas e tanto você quanto ela estão muito distraídos e nem se importam
com o esse acidente que nem sempre é tão insignificante.
Eu me importava muito com isso. Sempre atrapalhado, pensei que era culpa minha, mas talvez nem houvesse, talvez nem exista culpa nesta história.
Eu me importava muito com isso. Sempre atrapalhado, pensei que era culpa minha, mas talvez nem houvesse, talvez nem exista culpa nesta história.
Essa dinâmica dos esbarrões se repetiu atualmente e não foi com
desconhecidos. O doido vinha e eu ia, só que quando a colisão ia acontecer, sorri
e só eu desviei o caminho. Só eu.
A tarde continuou com uma série de lembranças que envolviam eu e o
não-esbarrado, lembranças de olhares.
Os olhares foram inicialmente de esguelha, ruborizados quando eram
refletidos. Houve um momento em que a reflexão, de tão intensa, beirava a unidade,
um olhar só existia no outro e vice-versa . Só havia o olhar vendo o olhar. Uma
hora ou outra havia uma piscadela, mas nada demais. Chegou um momento em que o
olhar começou a murchar, a arder de tão fixo. Voltou a esguelha. Em seguida,
reflexos intermitentes, olhares cansados, que não ruborizavam mais. Vieram os
desvios. Desvios que não eram causados pelos esbarrões de que falei, mas de
esquiva mesmo, evitação. O olhar não se sustenta mais. O desvio, sim. O desvio
em meu caminho leva, mesmo que de esguelha, ao olhar.
1. Foto do olhar de esguelha por Domingos Pinho
(http://olhares.uol.com.br/olhar_de_esguelha_foto2562251.html)